Continuando a minha busca por locações, agendei com meu amigo, o também fotógrafo Marçal Mateus, um tour pela bela e tranquila cidade de Itu, onde ele vivia na época. Achei que seria uma boa oportunidade para que minha filha de 7 anos tivesse um contato maior com a natureza, por isso a levei junto. Minha filha e eu vivemos os problemas das grandes cidades onde os espaços verdes são disputadíssimos e muitos são sujos e as vezes enfiar a cara na tv, celular ou computador parece ser a melhor forma de desperdiçar o tempo. Absurdamente, damos uma volta no shopping quando queremos espairecer. Me sinto até ridículo falando isso, mas é onde nos sentimos bem, seguros, entretidos.
Conhecida como a cidade dos exageros, o adjetivo se estende à simpatia e receptividade dos fazendeiros da cidade de Itu. Outra coisa com a qual não estamos muito acostumados. Esta viagem estava planejada para ser apenas negócios, visitas a fazendas, casarões antigos e intermináveis negociações de preços de locações. Pra minha surpresa (uma agradável surpresa), foi exatamente o oposto disso. Foi uma viagem riquíssima pra mim e principalmente pra minha filha. Tivemos a oportunidade de estar dentro da história do Brasil, mas isso vou deixar para um próximo artigo. O assunto aqui é meio ambiente. Vimos os dois lados dessa moeda. Vimos uma boa parte da mata atlântica intacta, preservada, mas também presenciamos uma cena muito triste: um rio morto. Minha história pessoal com o rio Tietê começa no final de 2012.Depois de 40 anos, minha irmã e eu resolvemos levar a minha vó a uma viagem. Uma viagem ao passado. Quando adentramos com o carro na Vila Maria Zélia, na zona norte de São Paulo, os olhos da minha vó já se encheram de lágrimas. Até então eu não sabia a importância que aquela vila tinha pra ela. Seus olhos não paravam um só segundo. Ela olhava para todos os cantos, pois parecia estar vivendo um sonho. Ela caminhou até o final da rua, apontou para um muro e disse: aqui passava o rio Tietê. Não demorou para que histórias sobre a importância do rio para a vida dela e de todos da vila surgissem. Pesca, brincadeiras, campeonatos de natação. A vida se passava às margens do rio. Nos dias quentes de verão, ao voltarem da escola, as crianças da vila corriam, as vezes escondidas da mãe, para mergulhar no rio. Mas naquela época, anos 40, o rio Tietê, apesar de limpo, já começava a agonizar.

Dona Edméa, minha vó, durante a visita à Vila Maria Zélia.

Em 2013, em uma viagem que eu fiz para o interior, ao pegar a Marginal do Tietê, olhei para o rio canalizado, reto, com carros às suas margens, lixo, uma água turva e fétida. Perguntava a mim mesmo: como pudemos errar tanto? Matamos um rio. Matamos a memória dos nossos velhos. Eu precisava de um fio de esperança.

Foi no começo de 2014 que convidei uma amiga, a Carol Ciola, para me acompanhar até Salesópolis, município do Estado de São Paulo onde se localiza a nascente mais distante do Rio Tietê. Em nada se parece com esse brutal fluxo da água que vemos na Marginal. É um laguinho de não mais que três metros de diâmetro onde pode-se ver três pequenas precipitações de onde brotam as águas do lençol freático. É ali que delicadamente brotam as águas do Rio Tietê. Limpa, cristalina e bem gelada. Peguei minha garrafinha, enchi dessa água e bebi. Só ali mesmo pra sobreviver a essa experiência. Um pouco mais adiante, o rio começa a receber seus afluentes e, mais a frente, a sua dose diária de veneno.

Apesar de estar a pouco mais de 20 km do litoral, o Rio Tietê não deságua no mar. Devido a geografia do seu curso, o rio migra em direção ao interior. Sua foz é no Rio Paraná, já na divisa com Mato Grosso do Sul. Da nascente até a foz, são mais de mil quilómetros.
Voltamos a outubro de 2015, na cidade de Itu. A última locação do roteiro foi uma usina abandonada que gerava energia para a cidade com as águas do Tietê. Onde antes estavam as turbinas agora estão seis buracos de 4 metros de diâmetro onde, devido à sua localização perante ao rio, acumula parte do lixo trazido pela correnteza. A escola onde minha filha estuda bate firmemente na tecla da consciência ambiental. Ela sempre chega em casa contando da importância de se preservar a natureza e reciclar nossos resíduos. Mas essa foi a primeira vez que ela encarou a realidade. Ela viu de perto do que o ser humano é capaz.

Nos buracos da usina, ela viu garrafas pet, capacete, as mais diversas embalagens. Do outro lado, no curso do rio, uma espuma branca. Demorou pra ela entender o que era aquilo, mas eu expliquei que se tratava do resultado de esgoto e produtos químicos lançados no rio. Acho que foi uma dose de realidade um pouco alta pra ela, pois o rio ainda preserva sua beleza ao passar bravamente por entre as rochas. Na cabecinha dela se passava: quer dizer que além do lixo que eu vi ali no buraco, essa espuma também é sujeira? Eu conheço a minha filha. Ela estava com vontade de chorar, mas se segurou. Com a voz triste ela disse que tinha que pegar uma vara para pescar todo esse lixo e reciclar. Pela primeira vez na vida fiquei aliviado com a mágoa da minha filha. É uma mágoa que vai se transformar em consciência ambiental no futuro.

Buraco onde ficavam as turbinas e hoje acumulam sujeiras jogadas no rio.

E é nessa tecla que eu insisto: nas nossas crianças, pois nos adultos eu já perdi totalmente a esperança. Hoje mesmo quando fui almoçar eu vi um cidadão jogando uma embalagem no chão sendo que no poste ao lado dele havia uma reluzente e alaranjada lixeira esperando pra receber aquela embalagem. O que esperar de uma pessoa dessas? Por isso a salvação está nesses seres que ainda estão com seus “discos rígidos” vazios. Nossas crianças podem crescer indiferentes ou podem crescer com a ciência da importância de se preservar nosso patrimônio natural. Cabe somente a nós, os responsáveis por tudo isso, mudar o curso do problema ambiental. Não podemos ficar indiferentes.
Assumo que eu não tinha como objetivo dar essa dose de realidade pra minha filha durante a viagem a Itu. Mas não me arrependo, pois ela saiu dos livros, da sala de aula e viu frente a frente o que é discutido na escola. Isso vai ficar marcado pra sempre na vida dela. Será sempre uma lembrança da responsabilidade que ela tem nas mãos. De que a vida pode ser muito melhor, basta fazer UMA escolha certa.

Rio Tietê passando pela cidade de Itu. Ao fundo, a espuma que se acumula no rio, derivada de poluentes.

Quem já visitou Buenos Aires ou Montevideo não imagina, mas as águas do Rio da Prata também são as águas do Tietê. Seu destino final é o Mar del Plata.

Os primeiros metros do curso do Rio Tietê.

A primeira “ponte” do Rio Tietê que fica a poucos metros da sua nascente.

Nascente do Rio Tietê.

 

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