Há muito tempo não pegava um dia de sol na vila histórica de Paranapiacaba. Pertencente à cidade de Santo André, no ABC Paulista, a vila é conhecida pela névoa que toma conta de tudo e torna a visibilidade das ruas e imóveis quase que inviável. Descendo as ruas estreitas e muito, mas muito inclinadas, passei batido pelo pontilhão e fui direto ao meu destino: a recém inaugurada sede do projeto Infinito Olhar. Lá fui recebido pelo casal Elis e Paulinho, respectivamente Elisângela Oliveira, psicóloga e Paulo Riscala, fotógrafo. Eles se conheceram na vila pela qual ambos são apaixonados e atualmente são moradores de Paranapiacaba. Como é uma vila pequena e um tanto isolada, foi um pouco difícil pra eles no começo, tanto pela aceitação dos moradores mais antigos quanto pela falta de recursos que um centro urbano poderia oferecer. Em Paranapiacaba não tem banco, nem posto de gasolina e muito menos um supermercado. Mas o local trouxe pra eles algo que as cidades não podiam prover: qualidade de vida.

E é lá que eles mantêm o projeto Infinito Olhar, uma instituição sem fins lucrativos que oferece aos jovens da vila a oportunidade de se expressar através da arte. Foi lá que, ao som de um vinil do Tim Maia, sentado em palets que foram transformados em bancos e cercado de belíssimas fotografias feitas pelos alunos, que eu tive a oportunidade de entrevistar Elis e Paulinho e conhecer mais sobre esse projeto encantador. Entre muitas risadas, misturadas a um entra e sai de alunos, eles falaram à Echoes sobre o Infinito Olhar, sobre a vila e sobre a vontade de fazer a diferença:
Echoes – Conte um pouco da história de vocês. Como tudo começou?

Elis – Primeiro que tudo acabou se misturando. A gente se conheceu aqui, Paulinho fotógrafo e eu psicóloga. Eu estava fazendo uma especialização em arteterapia e precisava de um estágio para compor as horas do curso. Aí eu tive a ideia de fazer esse projeto para contar como horas de estágio. A proposta foi unir mesmo o conhecimento da psicologia com o conhecimento da fotografia utilizando isso como instrumento artístico e terapêutico. Começamos com as crianças, conversamos com os pais, fizemos ficha de inscrição e marcamos de se encontrar na praça para fazer nossa primeira oficina, que foi no coreto. A gente começou fazendo um trabalho com terra e colagem para depois entrar na fotografia. Foram algumas oficinas de sensibilização e depois eles saíram para fotografar. Depois começamos a utilizar outros espaços como a biblioteca e a escola. Aí eu terminei meu curso, só que a essa altura o projeto já estava caminhando e estava super gostoso. E aí demos continuidade, porém dando abertura pros jovens. Abrimos agora uma turma só de crianças, mas há dois anos estamos trabalhando só com jovens.

Paulo – Quando eu tinha 12 anos eu ganhei uma Kodak Instamatic e foi aí onde a fotografia começou. As vezes também pegava a câmera do meu pai escondido pra fazer algumas fotos, boas fotos, mesmo sem conhecimento. Fiz publicidade e lá eu me especializei em comunicação visual e direção de arte. Mas até esse momento a fotografia ainda era um hobby. Até que eu fui convidado para trabalhar em uma fábrica de joias na qual o grande problema deles era a fotografia, em mostrar o produto como ele realmente é. E lá eu fui me especializando em macrofotografia. Foi a partir daí que eu fui me aperfeiçoando em fotografia. Fiz curso profissionalizante, mas não pensando em um dia ganhar dinheiro com fotografia. Minha ideia era ganhar dinheiro com direção de arte. Só que acabou “casando” as duas coisas e depois disso eu comecei a desenvolver a parte do profissional mesmo. Eu tenho poucos trabalhos de fotografia social, como festas e eventos. Meus trabalhos são mais voltados à publicidade. De uns anos pra cá eu estou começando a fazer fotografia social e aceitando isso, pois quando se vem da fotografia publicitaria para fotografia de book, é algo muito diferente. Eu já cheguei a fazer alguns trabalhos assim, porém eu [trabalhando] como diretor de fotografia e um fotógrafo, Antônio Carreiro – a gente já fez vários trabalhos juntos. Quando a gente pegou a casa aqui em Paranapiacaba em 2009, queríamos fazer um trabalho com as crianças, foi quando a Elis fez especialização (em arteterapia) e resolvemos criar o Infinito Olhar, que até hoje é um trabalho voluntário nosso. Não tem vínculo com a prefeitura, não tem vínculo com nada.

Echoes – Há quanto tempo vocês vivem na vila? Qual o motivo que os levou a vir morar aqui?

Paulo – O motivo é a paixão que os dois tinham por isso aqui, né?

Elis – A gente já gostava daqui e a gente acabou se conhecendo. Aí tinha aquele sonho – “já pensou que delicia morar aqui?” – Mas parecia um sonho tão distante né…

Paulo – Não é fácil pegar uma casa aqui. É tombado e tem um processo de licitação. É complicado.

Elis – Mas nós vinhamos quase todo final de semana aqui. Aí abriu um processo de licitação, mas na primeira vez não conseguimos.

Paulo – Na segunda vez, conseguimos resolver tudo em uma semana. Um conhecido nosso que mora aqui nos ligou e disse que havia aberto um novo processo de licitação e que tinham algumas casas. No dia seguinte de manhã a gente veio aqui, vimos os editais, demos uma olhada nas casas e dois dias depois fizemos uma visita para olhar pessoalmente. Quando chegou no dia da licitação, ganhamos por quinze reais de diferença (do maior valor oferecido até então).

Elis – Mas a gente já tinha uma proposta de que se a gente conseguisse uma casa aqui, não queríamos só morar e desfrutar da natureza. Queríamos ter algo para oferecer. Então vamos oferecer o que a gente tem.

Paulo – A gente já conseguia ver a necessidade que tinha aqui. Uma carência cultural. Tivemos muita dificuldade quando chegamos aqui. A reforma da casa demorou seis meses. Um arquiteto credenciado veio e fez o laudo do que você pode fazer. Mas enfrentamos uma dificuldade tremenda para encontrar mão de obra aqui. Principalmente quando você vem de fora. Depois de cinco anos que a gente está aqui, agora que estamos começando a se sentir aceitos pela comunidade.

Elis – Até então tinham aquelas pessoas que acolheram a gente. Cinquenta por cento da comunidade acolheu e cinquenta por cento mantinha distância. Hoje ainda tem, pois é uma vila pequena… mas a gente vai aos pouquinhos conquistando.

Echoes – Como é viver aqui?

Elis – A gente teve que se reconstruir, o nosso modo de vida… E a gente vai “pesando” também. Lá em São Paulo você tem um posto de gasolina a um quarteirão da sua casa só que as vezes pra você atravessar esse quarteirão você pega farol, pega trânsito, rodizio. Aqui não. É meia hora pra chegar em Rio Grande da Serra, ou um pouco menos. Só que não tem trânsito, você vai aproveitando a paisagem… não tem stress. Quando vamos para Ribeirão Pires já fazemos tudo: vamos ao banco, abastecemos o carro, fazemos compras. Mas as vezes acontece de chegar aqui e lembrarmos de que esquecemos alguma coisa. Mas tem uma coisa muito legal aqui que são os vizinhos! Não tem ovo, aí já grita “Lúcia – que é a vizinha – tem ovo?”. Então você acaba se aproximando mais das pessoas.

Paulo – Existe o cuidado um com o outro também. Várias vezes eu cheguei em casa e o vizinho da frente diz “olha, tem um Sedex que chegou aqui pra você”. Em São Paulo muitas vezes você não tem isso. Em São Paulo a gente é muito mimado. Tem tudo muito a mão. Pra você ter uma ideia, a internet chegou aqui em Paranapiacaba somente no ano passado.

Echoes – Quando veio a ideia de fazer a diferença aqui na vila e criar o projeto Infinito Olhar?

Paulo – Foi em janeiro de 2010. Mas nessa época só vinhamos aqui aos finais de semana. Só estamos fixos aqui há 3 anos.

Elis – Nessa época a gente já tinha percebido a necessidade. Conhecendo a história, conhecendo a população. Muitas casas tinham sido invadidas, tinha muita situação de desemprego, de pobreza. Foi ai que a gente já começou a formatar essa ideia.

Paulo – Existe uma carência cultural. Apesar de ter tanta história, existe uma carência de olhar pra fora. Aqui a própria geografia dela (da vila) é cercada. Se você fica muito tempo aqui, acaba ficando concentrado.

Elisângela Oliveira – Psicóloga e co-fundadora do Infinito Olhar

Elis – Levar esses meninos pra fora, levar em exposição é muito bacana. Agora com esse espaço aqui (referindo-se à sede do projeto recém inaugurada) eles estão se aproximando mais. Na vila eles não tem nenhum espaço que é deles. E aqui eles ficam muito a vontade. Agora temos internet aqui e, pros jovens, um lugar que tem internet… então estamos percebendo que eles estão começando a se apropriar desse espaço, que é essa nossa proposta.

Paulo – Eles vão em casa, mas é diferente eles irem lá que é a casa da Elis e do Paulo e virem aqui, que é a “nossa casa”, como eles chamam.

Elis – Eles dão ideias aqui. Uma aluna quis pintar uma prateleira de laranja e eu disse “pinta de qualquer jeito, é pra fazer uma pintura rústica”. Aí a aluna disse “ah, mas se eu fizer uma pintura assim em casa minha mãe vai brigar comigo, vai falar que é malfeita”. Mas aqui eles podem. Então eles procuram experimentar um pouco a criatividade, tem uma certa liberdade, mas com muita responsabilidade. Então é o espaço que a gente construiu pra gente e pra eles também.

Paulo – Na época em que está chegando perto da exposição, nós vamos orientando, mas chega uma hora que eles tem que jogar a criatividade deles a toda. E o que aconteceu naquela das caixas, a gente estava em um outro ateliê emprestado lá em baixo… a gente deu a chave na mão. “Meu, vai a hora que você quiser…”.

Elis – Começou essa dificuldade de horário, uma hora um pode, outro não pode… “Ó, a chave tá aqui”. Deixamos todo o material lá e eles pintaram as caixas. Aí eles se organizavam, se reuniam lá no horário que eles podiam, depois limpavam tudo, deixavam tudo bonitinho.

Paulo – A gente chegava e parecia que não tinha acontecido nada. Foi aí que as caixas começaram a se desenvolver, por que estavam empacadas. E as vezes a gente leva bronca deles. Outro dia levei uma bronca porque a Cris entrou no banheiro e viu uma aranha. A gente voltou agora da viagem de férias, então isso aqui ficou fechado.
O Jonatan nesse trabalho foi muito difícil. Agora tem uns quatro meses que ele ganhou a câmera do pai dele, uma pequena, supercompacta. Ele está indo. Hoje eu vi nas fotos dele que ele melhorou sessenta por cento. Você vê claramente nas fotos. E eu dou minha câmera na mão deles.

Echoes – Quantos jovens são beneficiados pelo Infinito Olhar?

Elis – São poucos. São dez.

Paulo – Somos em dez, mas estou sentindo que esse ano, quando a gente anda pela vila, alguns outros já vão perguntando. Como agora estamos com o local, aí fica mais visível.

Elis – Até então a gente não tinha o espaço. Agora fica mais fácil receber porque eles podem vir até aqui. E esse espaço aqui a gente inaugurou no final de novembro de 2015. Aí teve o final de ano, as festas, e agora que a gente está retomando. Final de semana passado vieram duas meninas aqui querendo conhecer e saber o que fazemos aqui. Explicamos o que é o projeto, dissemos que elas poderiam participar, trazer amigos. Então agora a gente acha que as pessoas estão começando a vir. Vêm a placa aí na frente, param, perguntam, alguns ficam com receio de entrar. Então agora a gente consegue captar mais jovens.

Echoes – Quais foram as metas já alcançadas com o projeto? E quais ainda faltam alcançar?

Paulo Riscala – Fotógrafo e co-fundador do Infinito Olhar.

Paulo – Uma das metas alcançadas foi que a gente conseguiu ir no Revelando São Paulo. Até então nós fazíamos a exposição e aí ficávamos tentando com a prefeitura pra ir no Festival de Inverno. Era sempre uma coisa aqui só e mirradinha. Aí um aluno da Elis de quando ela dava aula na Uninove, é da organização do Revelando São Paulo. É o maior festival de cultura tradicional paulista. São cidades do Estado de São Paulo que participam. Em São Paulo, o último que teve no Parque do Trote, na Vila Guilherme, foram duzentas e vinte cidades. Em São José dos Campos no ano passado, onde levamos as caixas, foram oitenta e cinco que levam artesanato e culinária. E tudo o que é exposto lá foi estudado e é uma tradição da cidade. Não é um artesão que faz aquilo por causa do festival. Ele tem uma tradição cultural.

Elis – A gente entra como stand institucional. Então nessa reunião a gente teve que ir lá, apresentar o projeto, e aí o diretor da ONG que cuida desse evento disse: “eu estou entendendo que com esse projeto de fotografia, vocês podem trazer o reencantamento da Vila de Paranapiacaba… Vocês não estão aqui me pedindo nada, eu quem estou convidando vocês a participarem”. Então esse vai ser o quarto ano que a gente participa. A gente leva a exposição, leva os meninos no final de semana lá, com hospedagem, alimentação, tudo.

Paulo – Ir para o Revelando São Paulo saiu daquela coisa tradicional que a gente estava. A gente está indo para um evento de um milhão de pessoas. A gente tem que ter uma foto ampliada com qualidade, a gente tem que ter produtos para vender lá para arrecadar pro projeto… então podemos dizer que a gente “saiu do quintal e foi pra frente da casa”.
E uma das exigências do Toninho Macedo foi para falar com o secretário de cultura e perguntar no que eles poderiam me ajudar. Foi legal porque a prefeitura começou a conhecer o Infinito Olhar. Então o projeto saiu de um cantinho e ganhou uma abertura muito grande.

Elis – A prefeitura por dois anos ofereceu transporte para levar os jovens até lá. No primeiro ano ampliaram as fotos.

Paulo – O Revelando São Paulo foi legal porque impulsionou a gente a profissionalizar o projeto e começar a ir atrás de dinheiro.

Elis – Em relação a dinheiro a gente não pode contar com a prefeitura. Teve um ano, o retrasado, que não teve nada. Eles deram só um rolinho de fita-banana que foi pra fixar as fotos no stand. E olha que nós mandamos o projeto falando do que a gente ia precisar, os custos, mas não conseguimos nada. Mas aí isso impulsionou a gente a ir atrás. Começamos a participar da plataforma de financiamento coletivo, o Catarse.

Echoes – Qual a repercussão que o projeto tem aqui na vila e fora dela?

Paulo – Aqui na vila a gente está começando a colher os resultados esse ano. A gente já está começando a ser consultado pela prefeitura para um projeto que eles querem fazer com os jovens e, dentro desse projeto, eles falaram que na parte de cultura e arte eles querem contratar o Infinito Olhar pra fazer.

Elis – Essa semana uma pessoa do IPHAN (Instituto da Pesquisa Histórica e Arquitetônica Nacional, órgão ligado ao Governo Federal) ligou falando que ficou sabendo do nosso projeto e que por conta do restauro, eles vão fazer uma intervenção de arte e querem o Infinito Olhar junto. Então a gente já está começando a ser reconhecido e a entrar no circuito cultural.

Paulo – O próprio IPHAN chamou a gente. A gente não precisou ir na prefeitura para que ela intermediasse. Agora a Secretaria de Turismo, em virtude do Festival do Cambuci, também entrou em contato e perguntou o que a gente podia fazer com foto. Eu dei a ideia de fazer um concurso de fotografia. Agora eu estou acabando de formatar esse concurso. Vai ser mobile, vai ser de celular. O motivo? Atinge eles (os jovens). Se faz um concurso para fotógrafo, aí só entrariam câmeras profissionais. Como é de foto de celular, atinge a todos. Então esse ano é o ano do reconhecimento do Infinito Olhar, pelo espaço e pelo reconhecimento dos cinco anos de trabalho que a gente tem aqui.
De fora, o que a gente consegue ver é que quando fomos a São José dos Campos, umas quatro ou cinco pessoas falaram que foram ao Revelando São Paulo, mas vieram primeiro ver a nossa exposição. Então a gente tá tendo esse reconhecimento. E pelo Facebook também né.

Elis e Paulo na sede do Infinito Olhar em Paranapiacaba.

Echoes – Além da fotografia, existe a expressão na arte manual e em belíssimos textos. Como foi o desenvolvimento desse talento nos jovens da vila?

Paulo – Eu não entro com a teoria da fotografia. Eu conto a história da fotografia, como surgiu a fotografia e eu ensino através de oficinas. Tem oficina de composição, oficina de sensibilização do olhar. Eles fazem fotos com os olhos vendados. Eles seguem uma série de oficinas que é onde eles vão trazendo o olhar mais aguçado. Porque se eu for pegar a teoria da fotografia, as linhas e toda aquela coisa… eles saem por essa porta correndo e não voltam nunca mais. No outro ateliê eles fizeram da pinhole que não deu certo porque enquanto eles estavam fazendo tava sol, aí a hora que foi fotografar, choveu. Mas mesmo assim eu montei o laboratório de revelação e deu pra ver o processo de como é revelar.

Echoes – Quais foram os benefícios trazidos pela arteterapia?

Elis – Eu não fiz uma estatística quantitativa. Talvez seja algo que eles não saibam, mas o expressar já é terapêutico. Então a maior proposta do projeto é dar essa liberdade, essa oportunidade de expressão. Quando você captura uma imagem, quando você dá um título para essa imagem, quando você propõe que eles consigam se expressar através da escrita… então tudo isso é um momento em que eles param pra pensar. As vezes eles se conversam, um ajuda o outro e acabam saindo coisas que nem a gente esperava. Então isso é saudável. Isso é uma forma saudável de transformar o que as vezes pode ser que incomoda, em forma de arte. Ou incomoda, ou não, ou as vezes é só uma forma de mostrar que “eu gosto daqui, eu valorizo esse lugar, mas eu também preciso mostrar que eu existo, que eu estou aqui”. E quando você expõe um trabalho, quem aqui que não gosta? Quando chegam pessoas lá no Revelando São Paulo, que passa mais de mil pessoas e ficam olhando as suas fotos, olhando o que você escreveu. Então esse é um trabalho de autoestima muito importante. Quem aqui que não quer ser reconhecido? Por mais tímido que seja, quem não gosta quando é apreciado, quando recebe um elogio? Então a partir desse trabalho com a autoestima você tem uma possibilidade de se sentir um pouco melhor, de valorizar onde você mora, de olhar de uma outra forma.

Fotografia: reprodução do folder da exposição fotográfica Mora Gente Aqui!?

Echoes – Hoje como é que vocês enxergam os jovens da vila? Eles tem consciência do patrimônio histórico e cultural?

Paulo – Existe um grande problema com essa consciência da preservação. Ao mesmo tempo que existe alguns que sabem da história, outros não sabem. Existe também uma revolta contra o poder público. O poder público fica tirando, fica como um mandante, um coronel. Então um grande problema que a gente tem aqui na vila é a consciência dos jovens com o patrimônio histórico e a preservação ambiental. Eu acho que eles tem uma consciência muito grande mais da natureza do que a própria preservação das casas.

Elis – Os moradores tem muito medo de retaliação, pensam que se fizerem alguma coisa “ah, a prefeitura pode tirar minha casa”. Então é uma coisa que a gente conversou bastante no começo. Aqui a gente tem essa liberdade. Um aluno fez umas fotos de um trem abandonado e questionou se ia poder mostrar isso, mostrar algo negativo aqui da vila. E é um trabalho independente. Não é que a gente quer mostrar o que é feio, a gente quer se expressar. Não importa pra gente se é bonito ou feio, se é positivo ou negativo, mas a imagem é uma forma de expressão mesmo.

Paulo – Só pra você entender um pouco, Paranapiacaba não é uma cidade que foi fundada. Aquela parte de baixo era uma empresa e a empresa manda embora. E eu acho que há no inconsciente das pessoas essa coisa de ser mandada embora. A pessoa pensa: “se eu for fazer isso eu vou ser mandado embora”. Hoje tem leis e contrato de aluguel. Se você tem contrato de aluguel e está pagando direitinho e o poder público vir e começar a fazer essa pressão, você vai no ministério público. O caminho é esse. Então essa é a nossa visão.

Vista panorâmica da Vila de Paranapiacaba / Fotografia: Diego Fernandez

Echoes – Numa época em que é mais fácil reclamar, protestar, inclusive em redes sociais, você está indo na contramão e realmente fazendo algo significativo. Como você enxerga o atual cenário do trabalho voluntário?

Paulo – Não é um trabalho fácil porque ele está um pouco desacreditado por várias razões. A nossa dúvida de criar ONG (organização não governamental) está justamente na falta de credibilidade das ONGs. Algumas foram criadas para pegar dinheiro público, então tem uma série de coisas. Então a gente não quer que o Inifinito Olhar seja visto dessa maneira, que quando você fala que é uma ONG as pessoas deem aquela torcida de nariz. Então a gente está estudando direitinho o que a gente vai ser pra não entrar nessa mesmice. Junto disso, eu também tenho feito um trabalho com os adultos. A gente se reúne na padaria de segunda-feira e alguns já estão começando a ir na ouvidoria e sair dessa coisa de reclamar e reclamar e começam fazer alguma coisa.

Elis – Isso a gente vê muito claro aqui, as pessoas reclamando. Já ouvi até comentários de que estaríamos explorando os jovens. É muito comum as pessoas virem aqui, fazem um filme, um trabalho de mestrado e vão embora. Nunca mais se ouve falar. E a gente continua. As vezes da um mal estar muito grande por não termos um apoio maior.
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A partir daqui a entrevista foi direcionada aos jovens alunos beneficiados pelo projeto Infinito Olhar. E como todo jovem, eles ficaram tímidos nos primeiros dois minutos e depois a proza pegou fogo. Como todos falaram (as vezes ao mesmo tempo) e para que a leitura não fique cansativa, coloquei as respostas em parágrafos identificando-os apenas como Jovens, porém creditados aqui. Participaram desta conversa: Joyce Ellen (18 anos), Jonatan Soares (16), Maria Cristina (18), Rafaela (18) e Renato Melo (18).

Da esquerda pra direita, os alunos Joyce, Jonathan, Maria e Rafaela. / Fotografia: Diego Fernandez

Echoes – O que mudou na rotina de vocês depois do projeto?

Jovens – Eu tento me imaginar sem o projeto e eu não sei o que eu estaria fazendo sem ele. Mudou a minha visão sobre a vila, mudou a minha visão sobre as pessoas, minha rotina melhorou porque eu tenho o que fazer né (risos). A maior queixa de quase todos os jovens é que aqui é um lugar onde não tem nada pra fazer, que a gente só fica em casa, só chove, que não tem nada. E aí o projeto apareceu.

Echoes – O que inspira vocês a fotografar?

Jovens – Mostrar a vila do nosso ponto de vista.
A vila pra maioria das pessoas é o Big Bang, a ponte e o Lira. E aí eu tentei fotografar uma casa por dentro e algumas pessoas questionaram: “mas isso está destruído, tem que reformar”. E eu tento mostrar que é feio no olhar das pessoas mas eu acho bonito. Na última exposição eu quis mostrar isso.

Echoes – Qual a importância do projeto na vida de vocês?

Pra mim esse projeto deu uma outra visão de vida. Até antes de entrar no projeto eu não tinha ideia do que ia fazer depois que saísse da escola, mas quando ele chegou, alguma coisa mudou na minha vida. A fotografia virou uma coisa muito importante pra mim. Me acalma, me traz uma paz e tenho muita vontade de continuar com isso.

Echoes – Vocês pensam em seguir carreira nas artes?

Sim. Mesmo que eu siga outra carreira, a fotografia sempre será uma válvula de escape. É um refúgio. Mesmo que eu escolha uma outra profissão, a fotografia vai caminhar lado a lado sempre.

Echoes – E essa vontade de escrever, vai continuar?

Quando falam que a gente vai escrever um texto para exposição… a gente entra em pânico né? (risos). Mas no fim dá tudo certo, a gente gosta.

Elis – Sabe que eles me surpreenderam? Quando eu propus, não era nem um texto, era um título e talvez uma frase. Eu até pra tentar ajudar, coloquei algumas perguntas pra eles responderem. Eu achei que eu ia pegar as respostas deles e elaborar um texto. Só que não foi isso. Eles começaram a se movimentar e eu deixei. E aí saíram os textos.

Echoes – Enquanto a maioria dos jovens ficam com a cara enfiada no celular conversando pelo Whatsapp e perdendo horas em redes sociais, vocês usam boa parte do tempo de vocês para se dedicar as artes. Como vocês enxergam a geração de vocês? O acesso mais fácil a informação está ajudando ou prejudicando o desenvolvimento?

Ajuda e atrapalha. A gente consegue enxergar isso pela vila. Antigamente só tinha criança brincando pela rua, brincando de pega-pega, com o joelho sujo e agora se você sair na rua, você não vê criança saindo pra brincar depois da escola. A gente raramente vê. Tá todo mundo em casa no computador, televisão, celular ou jogando videogame.

Paulo – Uma coisa que eu percebo aqui é que quando acaba a luz, você escuta mais conversa. As pessoas saem na rua. E eu aproveito, né? Gosto de fazer fotos noturnas.
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E com o comentário de Joyce para o Paulo de que “só falta agora você querer tirar a energia elétrica aqui da vila né?”, encerramos a entrevista ao meio de muitas risadas. Foi um papo bem legal, com pessoas de bem que estão fazendo a diferença. Para conhecer o Infinito Olhar é melhor acessar a Vila de Paranapiacaba pela parte alta, estacionar e ir descendo a pé. Fica na Rua Willian Speers, 45, Paranapiacaba.

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