Raw Project

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Por Diego Fernandez

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No começo deste ano convidei a modelo Jenny Marinho para participar de um editorial para uma boutique de acessórios de noivas, no qual eu iria fotografar. Como quase sempre acontece, ela aceitou. Durante a conversa, comentamos que fazia tempo que eu não a fotografava. Meio que sem compromisso, comentei “Leve algumas roupas. Quem sabe?”. Não lembro se foram com essas palavras, mas o sentido foi esse. Neste dia estávamos todos alinhados. Muita gente pra maquiar, fazer cabelo, produzir a parte de moda. Tudo correu perfeitamente bem e algo raro aconteceu: terminamos tudo antes do anoitecer.

E não é que ia rolar a sessão de fotos com a Jenny? Pra que não fosse um simples “fotografar por fotografar”, uma das maquiadoras, a Angel (que faz jus ao nome), gentilmente retocou o make da minha modelo e fomos para a locação. Não era pra ser um editorial e tão pouco um trabalho que eu fosse divulgar na minha página. Pelo menos não era essa a expectativa. Sem assistente, sem produtora de moda, sem maquiador e cabeleireiro. O que podíamos esperar daquilo? Mas parece que quando eu coloco a câmera no olho e começo a enxergar pela minha lente cinquentinha, toda aquela falta de expectativa cai por terra. Mesmo com a criatividade já alterada pelo cansaço, comecei a dirigir e o meu lado mais exigente começou a falar mais alto. Mas calma. Estou sendo um pouco egocêntrico aqui, afinal, quem estava na minha frente era uma modelo simplesmente fantástica. Não por ser linda, pois como já disse algumas vezes, beleza não é mérito. Ninguém se esforça pra ser linda. Quer dizer, até se esforça, mas não consegue (o triste caso de G. Arruda). Colocando sua beleza exótica de lado, o que sobressaiu ali foram expressões, olhares e até caretas. Pois é, privilégio de poucas ficar linda até fazendo careta.

Jenny_027Muros em ruínas, pracinha, igreja e até a Lua serviram de background neste dia. Acabou a sessão, fomos cada um pra sua casa e no dia seguinte baixei as fotos no computador. Imediatamente, ao ver o que tínhamos produzido, fui remetido às minhas raízes como fotógrafo. Ali estava um trabalho totalmente autoral. O fato de eu não ter obrigação de produzir “do jeito que o mercado quer” me deu a liberdade de colocar minha identidade naquelas fotos. Ficaram lindas. Além do mais, já as fiz pensando no preto e branco, outra característica de minhas raízes. Muito antes de eu saber quem era Sebastião Salgado, minha vó já dizia “as fotografias ficam mais interessantes em preto e branco”. Ela tem razão. O preto e branco suaviza a pele, dá mais contraste e torna a fotografia mais instigante. A pessoa presta atenção na cena e não nas cores. Mas depois conheci Salgado, que foi o cara que me inspirou a fotografar. Não só pela sua qualidade fotográfica, mas pelo seu caráter. Acho que mais pelo caráter, pois Salgado é fotojornalista e um dos seus trabalhos mais recentes, o Gênesis, trata de fotografia de paisagens, de origens, do cerne da nossa existência. Eu sou fotógrafo de moda. Apesar de ter um pouco de fotojornalismo no que faço, ainda assim a moda é o que da nome ao que produzo.

Aquele ensaio agradou tanto que me veio à cabeça a ideia de criar um projeto de fotografia pura, crua. Claro, pura mesmo só a madre superiora né. Se a foto é digital, um pouco de retoque tem. Mas sem aquela suavização absurda na pele (que sou contra e trabalho-as com moderação em meus editoriais), sem alteração nas cores do céu, da terra e do mar. Até mesmo porquê, o projeto tinha que ser em preto e branco. Outra coisa que dá um tom mais charmoso às fotografias do projeto é o ISO elevado. Hoje com a fotografia de celular gritando em tudo quanto é canto, a maioria das pessoas não sabe ou já se esqueceu o que é ISO (antigamente no Brasil chamávamos de ASA). Na época de fotografia com filme, tinhamos que escolher o mesmo pelo ISO. Em ambientes escuros, ISO mais elevado, em aJenny_020mbientes claros, menos ISO. Como muitos fotojornalistas hora estavam em ambiente escuro hora em ambiente claro, escolhia-se um filme com ISO mediano que servisse bem pra vários ambientes.
Só que um ISO mais elevado causa granulação nas fotos. Alguns viam como um problema. Eu já acho que dá um charme para a foto. Por isso, outra definição para o projeto seria o uso de um ISO acima de 600. Apesar do fato de que na fotografia digital o ISO pode ser mudado com um rápido ajuste, não o deixei elevado pela quantidade de luz no ambiente, mas sim pela granulação causada nas fotos.Jenny_014

Quando parei pra pensar no fato de querer uma foto crua, uma foto que ficaria praticamente do mesmo jeito que saiu da câmera, liguei os pontos: o arquivo que sai de uma câmera digital profissional vem em formato Raw, que também significa “cru” em inglês. Confesso que não precisei pensar muito pra escolher esse nome. As vezes o simples é o mais adequado. Nome escolhido, agora só faltava produzir. Claro que não é pelo fato do projeto ser autoral que sairei fotografando ao vento. Primeira coisa foi apresentar a proposta à produtora de moda Suellen Margato, que com sua paciência enorme tenta entender e lograr minhas loucuras. Espero não chegar ao ponto de deixa-la louca também, senão eu to fodido. Alguém tem que ter os pés no chão aqui. Enfim, não é que ela aceitou? Falei com meu pessoal de beauty que também assinou embaixo e fomos em busca da modelo. A linda Dany Nonato foi a escolhida para interpretar a primeira personagem do projeto: uma celebridade perdida na cidade. O bairro da Liberdade em São Paulo nos serviu de cenário.

Algo muito importante que eu quero esclarecer aqui antes de ser questionado é que as fotografias do projeto Raw não estão totalmente livres de edição. A ideia é usar o menos possível, é acertar na hora do clique. Mas muitas vezes precisamos puxar algumas informações que já existem na fotografia, porém estão escondidas. A primeira delas é transformar em preto e branco, pois a fotografia sai da câmera colorida. Depois basicamente mexemos nos tons. Só. Tratamento de pele nem pensar. Muito menos estética facial ou corporal.

Me dei essa “liberdade” de ajustar os tons porque é algo que já era feito na época da fotografia de filme. Não é um privilégio da fotografia digital. Na hora de fazer a revelação química, o fotógrafo optava por clarear ou escurecer determinadas regiões da fotografia, dando o tom certo onde fosse desejado. Dava um puta trabalho, mas era assim antigamente. Ou seja, Raw não é um projeto isento de retoques, mas sim um projeto com limites rigorosos em relação a isso.

Aos amigos fotógrafos que estiverem lendo também quero dizer que não sou contra retoques. Ao contrário. Acho que num editorial precisamos de retoques, afinal é a imagem que vai vender um produto. Precisa estar perfeita. Eu gostaria que o mercado fosse mais aberto à realidade (coisa que timidamente está acontecendo), mas não é. Como o projeto Raw é autoral, me dou ao luxo de colocar meus limites ao retoque e manipulação.

Obrigado pela visita!

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