Demorou muito, mas finalmente o mercado da moda pode estar caindo na real. As passarelas, capas de revistas e propagandas de grandes marcas ainda são dominadas pelas super-models com shape a la Gisele Bündchen ou Gigi Hadid. Mas uma nova tendência está surgindo e aos poucos ganhando seu espaço: a de trazer as coleções e campanhas mais próximas à realidade.

Isso é bom para a label e para milhões de pessoas que todos os anos correm de agência em agência tentando uma vaga no concorrido mercado de modelos. Para a label é bom porque é sabido que seu público alvo tem poder aquisitivo para pagar o alto valor de uma peça. O que não se sabe é se essa consumidora tem o corpo de uma top model. A questão central aqui não é o ajuste da roupa ao corpo, pois obviamente a consumidora comprará a roupa sob medida, e sim como o caimento dessa roupa é exposto à consumidora final. Pensando nisso, estilistas como Felipe Fanaia e Heloísa Faria convidaram pessoas comuns (leia-se não-modelos super altas e magras) para desfilar suas coleções, o que faz com que as pessoas se identifiquem mais com a marca.

Para pessoas que correm atrás de uma chance como modelo é um raio de esperança. Não acredito que isso vá diminuir a concorrência. Pelo contrário, mais pessoas se sentirão motivadas a fazer suas apostas no seguimento. Porém, isso torna a área mais democrática e justa. Afinal, estatura, aparência e porte físico são aspectos que fogem do controle das pessoas. Claro que a beleza sempre será fundamental, mas o legal disso tudo é que as vezes essa beleza pode aflorar da personalidade, da desenvoltura e da capacidade de se expressar, deixando assim a “casca” em segundo plano.

Inclusive faz um tempo já que o mercado da moda está mais preocupado com padrões do que com beleza. Tem um “pessoalzinho” bem feio fazendo sucesso por aí. Parece até que tem um gabarito: a regra é “se tudo estiver no lugar, então serve”.

Um dos responsáveis por essa flexibilização pode ter sido o surgimento das novas tecnologias para dispositivos móveis – com o Instagram encabeçando a lista. Queridinho do mercado da moda em geral, o app virou plataforma de divulgação de grandes marcas e uma janela para as influencers. São pessoas que não necessariamente falam sobre moda, mas conquistam o público com assuntos relevantes ou até mesmo com uma nova forma de passar uma mensagem, como é o caso da brasileira Verena Smit (@verenasmit) que conquistou mais de 200 mil seguidores em sua conta do Instagram com pequenas poesias datilografadas em sua máquina de escrever.

As influencers quase nunca se encaixam nos padrões da moda. Mesmo assim são assediadas por grandes marcas para usar seus produtos e postar nas redes sociais. A diretora da Vogue España Yolanda Sacristán escreveu na publicação de fevereiro deste ano da revista: “… antes admirávamos as top models; agora seguimos as rainhas das redes sociais, novos ícones do sistema fashion”.

A nova geração de fotógrafos também é afetada de forma positiva. É quase impossível achar uma modelo “padrão passarela” que ainda não tenha sido agenciada. Em contrapartida lindas meninas e mulheres (e rapazes) buscam a oportunidade de fazer o seu primeiro ensaio. É o casamento perfeito! Todos buscam a mesma coisa: o portfólio. É o ganha-ganha.

Mas isso não significa que o mundo da moda abriu mão de vez dos critérios. O fotógrafo não pode usar qualquer pessoa pra criar seu portfólio assim como as candidatas a modelo não podem sair posando para qualquer fotógrafo. Não seria sequer justo. Ser modelo não é fácil. Você tem que abrir mão de muita coisa para poder atender às exigências desse universo, que muitas vezes são impostas de uma forma velada: “você não pode comer o que quer, não pode engravidar quando quer, tem que viajar quando nós queremos, tem que sorrir pra pessoas que nos interessam, tem que ser serena enquanto esse calçado acaba com o seu pé e… vamos malhar esse corpinho?”. O mesmo eu digo dos fotógrafos. Ter comprado uma DSLR não o habilita automaticamente a ser um fotógrafo. E mesmo que você conheça os principais fundamentos da fotografia, entenda que fotografar moda faz parte de um outro universo e que o estudo deve ser intenso e contínuo. Você aí que está se gabando com sua 5D Mark III sabe sequer o que é um chocker, um vestido plisado, denin? Se quer entrar no mercado, mergulhe de cabeça.

 

Ser interessante é a palavra da vez. Na moda a imagem é a locomotiva que impulsiona o mercado. Por isso fotógrafos e modelos tem que entender que o mercado fashion pode ter se flexibilizado com padrões, mas nunca vai abrir mão de personalidade, expressão e linguagem. Mas insisto, as notícias são boas pois cada vez mais a responsabilidade do seu sucesso está sendo passada para as suas mãos.

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