Trabalhar com fotografia e audiovisual é gostoso, é divertido, mas não dá pra dizer que é fácil. Não foram poucas as vezes em que pensei em desistir frente aos desafios que essa profissão traz. Mas será que existe uma profissão que não traga desafios? Será que, de uma forma ou de outra, não pagamos um preço pela carreira que escolhemos?
A resposta pra isso não é um simples “sim” ou “não”. Existem várias nuances a serem analisadas em cada carreira. Tem gente que prefere estudar para um cargo administrativo que traga estabilidade e segurança, mas paga o preço de ficar refém em um escritório, de receber cobranças de chefes, de clientes, de fornecedores e, às vezes, ter que trabalhar além do horário devido ao senso de responsabilidade na entrega de resultados.
Já quando trabalhamos com fotografia e audiovisual, existe no início a falsa sensação de liberdade e glamour. Eles até existem nessa área, mas não reinam absolutos. Na verdade, trabalhar com liberdade nas artes visuais é algo que precisa ser conquistado com muito esforço e — que irônico — com a privação de certas liberdades. Se acrescentarmos o glamour, aí então esse esforço precisa ser multiplicado.
Mas, sinceramente, desses dois objetivos que acabei de citar, um beira a superficialidade — que é a liberdade — e o outro ultrapassa em muito os limites da futilidade — que é o glamour. O que não te ensinam em nenhuma escola do segmento de artes, e que é o mais importante, é: ter dinheiro no bolso.
A liberdade nunca é total; afinal, você vai ter que seguir o briefing do seu cliente. E glamour… bom, você não paga seu assistente com glamour, você não renova suas câmeras e lentes com glamour e, até onde eu sei, supermercados não aceitam glamour como forma de pagamento. Se é isso que você busca, aqui vai uma verdade: você irá desistir.
Mas eu tô aqui pra colocar os seus pés no chão e ser empático com uma situação que muitos estão vivenciando. Não conseguir clientes logo no início é normal, assim como ter seus altos e baixos conforme os anos vão passando. E é justamente aí que está a armadilha. Quando os negócios estão em alta, a primeira coisa que você pensa é: “agora vai”. Mas isso pode ter sido apenas uma “maré boa”. E aí, logo em seguida, vem a frustração. Quando começam a vir momentos consecutivos de baixa — muita gente procurando e quase ninguém fechando ou, ainda pior, quase nenhum lead sequer procurando —, é aí que muitos bons profissionais acabam ficando pelo caminho.
Vou dar um relato pessoal com o qual tenho certeza de que muita gente vai se identificar. Foi em 2018. Eu ainda era CLT, mas ansiava muito por poder trabalhar somente com fotografia. Só que as coisas iam de mal a pior. Com poucos leads entrando em contato, eu estava praticamente há 2 meses sem receber um centavo sequer pelo meu trabalho. Foi também o ano em que tomei meu primeiro grande calote. Em uma determinada semana, recebi pelo menos uns cinco contatos pelo meu Instagram solicitando permuta. E teve uma proposta específica que me fez tomar a decisão de desistir.
Desistir de fotografar? Jamais. Eu amo fotografar. Me fez desistir de querer tentar ganhar dinheiro com fotografia. A pessoa em questão entrou em contato tecendo os mais belos elogios ao meu trabalho, solicitou um orçamento, disse estar ansiosa para ser fotografada por mim e, depois de ter me feito jogar fora quase uma hora da minha vida, veio com a verdade que esteve escondida esse tempo todo: ela não queria pagar pelo meu serviço. Queria que eu colocasse meus — na época — 8 anos de conhecimento, meus equipamentos que valiam mais de 50 mil reais e muitas horas do meu dia à disposição dela sem receber um centavo sequer. Mas, pelo menos, ela iria me marcar no Instagram.
Foi a primeira vez que soltei uma frase libertadora: “eu não trabalho de graça”. Claro que ela tentou argumentar que não era de graça, que conhecia muita gente, que minha carreira iria decolar depois que eu a fotografasse… O que mais ela disse eu não sei, pois foi nessa hora que a bloqueei. Ao mesmo tempo que dei um simbólico “foda-se” pra essa Maria Permuta, desabei numa decepção profunda em relação à carreira de fotógrafo. Foi naquele instante que tomei a decisão de vender tudo o que não seria mais necessário: tripés, modificadores, flashes e rádio-flashes. Ficaria só com a minha câmera para fotografar por hobby.
Mas a vida, essa vadia sem coração, às vezes tem seus momentos que te fazem pensar: “caraio, agora cê mandou bem!”. No dia seguinte, acordei com uma mensagem da Ju no meu celular. Ela era uma das maquiadoras parceiras que maquiavam minhas modelos. E, assim como eu, tinha duas profissões: além de maquiadora, era CLT em uma empresa.
A mensagem dizia: “Meu chefe está lançando uma marca de moda e quer produzir o material com você”. Pois é: nas primeiras horas do dia seguinte à minha desistência da fotografia, o universo me mandou um “peraí, onde cê pensa que cê vai?”. Não era pra eu desistir, afinal.
É claro que esse timing perfeito foi apenas um golpe de sorte. Acho difícil isso se repetir com outras pessoas. E não estou falando do fato de aparecer um cliente, mas de aparecer uma oportunidade logo no dia seguinte à minha decisão.
O que quero dizer é: o cliente pode não aparecer no exato momento em que você está precisando, mas ele vai aparecer. As coisas podem não acontecer do jeito que você quer, mas vão acontecer. Claro que não do nada. Chega uma hora em que a vida manda um “me ajuda a te ajudar”. Você precisa montar estratégias e — olha mais uma ironia — aprender a desistir.
Não desistir da sua carreira e muito menos dos seus objetivos, mas desistir de técnicas de venda que não dão certo, de convicções que só existem na sua cabeça, de ideias ultrapassadas, de clientes ruins, de finais de semana de pernas pro ar, entre muitas outras coisas que funcionam como uma bola de ferro amarrada à sua perna enquanto tenta caminhar.
Equilibrar sobrevivência com metas é extremamente difícil, mas você precisa escolher suas batalhas. Por anos a fio, toquei o trabalho de fotografia em paralelo a um emprego fixo no regime CLT. Já não existiam finais de semana e o tempo de descanso era cada vez mais raro. No final das contas, isso acabou se tornando até uma estratégia de vendas. Como eu precisava negociar com o meu lead um horário livre na minha agenda, isso passava a impressão de que ela estava sempre lotada. E gerar a sensação de escassez é um dos gatilhos mais eficientes nas vendas.
O fato é que tive que me virar como pude e hoje, em pleno 2026, eu de fato tenho uma agenda lotada com clientes de fotografia e audiovisual. E precisei fazer apenas uma coisa: não desistir.
A solução parece simples, mas não é. Porém, quando olho pra trás, sinto gratidão por cada um dos percalços que a vida colocou no meu caminho. Depois que você “sobrevive” aos primeiros obstáculos, passa a encarar os demais com mais naturalidade. E, felizmente, não foram poucos.
Quando tomei meu primeiro calote, aprendi que era melhor abrir logo o meu MEI para poder protestar o nome dos futuros inadimplentes. Quando tomei a decisão de desistir, aprendi que uma fase ruim é só uma fase. Quando me vi obrigado a fechar o estúdio, aprendi que existem soluções melhores com um custo muito menor. Tudo isso me faz lembrar as palavras de George Harrison: “um céu carregado não dura o dia todo”.
Voltando ao cliente que apareceu no momento em que eu estava desistindo, ele não apenas me fez prevalecer na fotografia; teve outra feliz coincidência nessa história. A produtora dele havia me solicitado um rolo de fundo infinito de uma cor específica para as fotos. Fiz uma pesquisa no Google e encontrei a cor desejada em uma loja de São Paulo chamada LumitecFoto. Lembro que esse nome me marcou porque, quando entregaram o rolo de papel na minha casa, veio junto um catálogo com várias outras opções de cores.
Enquanto isso, o cliente reservou um estúdio para a sessão de fotos. E qual foi a minha surpresa? O estúdio era na própria LumitecFoto. Na ocasião, até comentei com o vendedor que, se soubesse da escolha do estúdio, nem teria pedido para entregar o rolo de papel na minha casa.
Essa foi a primeira vez em que tive contato com o pessoal da LumitecFoto. Depois disso, acabei me tornando cliente deles e, de uns anos pra cá — como quem acompanha o canal no YouTube sabe —, fechei uma parceria para produção de conteúdo.
E sim: também pensei em desistir de produzir conteúdo para o YouTube. É uma plataforma que dá a oportunidade de levantar uma graninha, mas é o trabalho mais mal remunerado que já tive na vida. Produzir conteúdo de qualidade dá trabalho e consome um tempo precioso, além de exigir lidar com baixo engajamento, rejeição e haters.
Não desisti porque já estou calejado. Hoje meu canal monetiza. Não tanto quanto vale o meu trabalho, mas monetiza. Clientes e patrocinadores chegaram até mim através dele. Vez ou outra alguém pede pra tirar foto comigo em algum evento do audiovisual. Ainda não cheguei onde quero no YouTube, mas continuo caminhando.
Ter a consciência de que muitos fatores vão tentar te desanimar é fundamental para encará-los de frente. Conheça o seu inimigo: equipamento de entrada, falta de flashes, de tripés, de modificadores, lente do kit, falta de um espaço adequado pra fotografar, computador antigo e lento que consome horas para editar o material captado… No final das contas, tudo se resume a dinheiro. Num país onde se ganha pouco e a maior parte da população trabalha apenas pela própria subsistência, investir nos caríssimos equipamentos do audiovisual parece uma batalha quase perdida. Então, agarre-se ao “quase”. O seu cliente está mais preocupado com a sua postura e com o resultado do seu trabalho do que com o equipamento que você está utilizando. No momento em que escrevo este artigo, utilizo duas câmeras com mais de 10 anos de uso. São elas que pagam minhas contas.
Você não está sozinho nessa jornada. Ela não é fácil, mas só cabe a você decidir se vai desistir ou se vai prevalecer.